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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Como Deus pode te ajudar?



Baseado em Lucas 13

            Jesus narra que Pilatos estava misturando sangue de galileus nos sacrifícios. Pessoas estavam sendo sacrificadas em cerimônias pagãs. Por que tem gente que sofre mais do que outros? Jesus questiona se os que sofrem são piores do que nós. Ele diz que não. Fala sobre uma tragédia que aconteceu. Uma torre que caiu sobre algumas pessoas. Como tetos de igrejas, marquises, aviões que caem. Vocês acham que essas pessoas são piores do que os que estão vivos hoje? Qual nossa vantagem sobre eles? Os pastores das igrejas que desabam matando os fiéis estariam em pecado?

            Um pai que está na emergência do hospital com seu filho doente é mais pecador do que você? Uma família que esta em falência é menos amada por Deus do que você? Acham que os judeus que morreram no holocausto nazista, ciganos, homossexuais, eram piores do que nós? Os sírios que estão procurando um abrigo no mundo são piores do que nós? Será que você ainda tem essa idéia de que quando uma coisa acontece na sua vida de ruim foi o diabo? Você pensa que gente que morre de bala perdida, em acidente de trânsito, merecem morrer porque chegou a hora delas?
            
           Se você acha isso, eu tenho pena de você. Todos estamos sujeitos a isso e no dia que isso acontecer você não estará preparado. Ninguém é uma ilha. Se cair um ônibus de uma ribanceira e você estiver no ônibus, você vai morrer também com todos os outros. Se um avião explodir com você dentro, você vai morrer também. Se vivemos nesse mundo, é estatístico que um dia seremos assaltados. Se perguntarmos quantas pessoas foram assaltadas na Suíça é diferente do mesmo questionamento aqui no Brasil. O índice de criminalidade é alto. Vivemos conectados com o mundo. Se o nosso mundo está sofrendo, vamos sofrer com o mundo. 
         
         Essa é minha raiva quando vejo um adesivo escrito “Propriedade de Jesus” ou “Foi Deus que me deu”.Isso é escarnecer de quem anda de ônibus. Por que os ônibus não são tão bons como seu carro? As coisas acontecem porque vivemos no mundo que tem maldade e bondade. O mundo não segue em trilhos. Se seguisse, não teríamos liberdade. Estaríamos brincando de marionetes no palco da existência. Cada um de nós escolhe, opta. Nessas escolhas é que coisas ruins podem acontecer. 

          Um tigre não deixa de ser tigre, mas um ser humano pode se desumanizar. Ou seja, um homem pode, devido às suas decisões, mudar. Se não fosse assim, eu não poderia criticar um homem que mata em série, nem elogiar um samaritano que ajuda alguém caído na calçada. Por que eu elogio uma bondade? Porque quem a fez poderia ser mal, mas não. Porque eu rejeito uma maldade? Porque poderia ter sido feito o bem, mas não. Os trilhos da vida não são definitivos. Você escolhe, você decide. É por essa liberdade que um cara embriagado pode matar alguém que está sentado esperando a condução. E a pessoa que estava na calçada nem por isso é mais pecadora do que nós. O acaso existe. Não era pra acontecer, mas aconteceu. 

3.                              Não existem vontade soltas. Quando caiu uma torre na cabeça das pessoas a Bíblia não diz que foi um demônio que empurrou a torre, nem que o horóscopo não estava favorável aos vitimados. Não existe uma energia negativa sobre você. Nem positiva. O universo nos é indiferente. A confluência de Marte com Vênus não influencia em nada sua vida. O universo não quer nem o seu bem nem o seu mal. Os astros não estão nem a favor nem contra ninguém. Não há diferença entre 31 de dezembro de 2016 para 01 de janeiro de 2017. 
    
               O que quero dizer com isso? Vou ser mais direto. Deus não dá câncer pra ninguém. Assim como ele não dá carro, ele não dá câncer. Tribulação é resultado da vida. É impossível viver sem passar por riscos. A gente quer dar uma de espírita, procurando explicação para as coisas. Um dia desses um piloto alemão jogou o avião nos Alpes e matou todo mundo do avião. Todo mundo naquele voo era amaldiçoado por Deus ou estava sobre influência maligna? Deus reuniu todas as pessoas ruins naquele avião porque chegou a hora? Nunca usem essa lógica. Não existe uma premeditação divina para soltar demônios sobre as pessoas para que sofram. Acidentes e tribulações não seguem a lógica de benção e de maldição. Tem pessoas que fazem tudo certo e mesmo assim algumas coisas dão errado porque a vida não é seletiva.

         Nesse contexto, galileus estavam morrendo, caiu uma torre em Siloé e Jesus conta uma parábola. A figueira que não dava fruto. Corte a figueira! O capataz disse não. Pediu pra podar e adubar por mais um ano. Se no ano que vem ainda estiver estéril, cortaria. O dono da propriedade disse tudo bem. Por que Jesus contou isso? Deus não desiste de nós, mesmo quando frustramos as expectativas dele. Mesmo quando o mundo frustra a expectativa de Deus, Ele não desiste. O que cuidava da figueira disse não. Jesus diz pra não cortar. Quando olhamos o mundo nesse perigo total, a mensagem que podemos dizer às pessoas no meio disso tudo é que Deus não desiste de nós! Deus continua dizendo que é possível reverter essa história. Martin Luther King dizia que, para o mal vencer, basta que os bons cruzem os braços. Vamos investir na figueira. Ela pode dar fruto ainda!

2.                  Deus não espera. Deus investe. O senhor do pomar mandou cortar. O capataz pediu pra adubar. Deus não está num lugar remoto, num alto trono, se esbaldando, fora da última galáxia do universo, sentado, olhando o mundo. Deus está intimamente envolvido nas nossas histórias. Ele está extremamente envolvido com quem está sofrendo, com quem levou uma rasteira da vida. Quando o rim ou a vesícula não ajuda, quando o filho não obedece, quando o marido não volta pra casa, Deus investe na sua vida para que a sua vida não desapareça nessa decepção. Ele age. Deus age. E a ação de Deus não é de punição. Ele sabe que somos pó. Deus não é tirano, principalmente com os que sofrem. Ele não empurra pra baixo. O sentido da ressurreição é esse. Ele te dá vida agora. Há vida eterna hoje! Ele é a ressurreição e a vida. Ele quer nos levantar, como aquela figueira que podia ser cortada fora. 

              Rubem Alves dizia: Quando eu tiver perto de morrer, eu quero que as pessoas que me rodeiam conversem comigo honestamente pra que eu possa valorizar os últimos dias e que digam o que de mim vai ficar neles. Jesus chorou diante da morte, mas não evitou o tema. Ele dizia que sua hora estava perto e não ficou em jogo de mentira ou falsas boas expectativas. Tem uma figueira que está em processo de morte e Jesus diz que vai investir nela. Não sei quanto tempo você ainda tem, mas Deus quer investir tudo em você. Deus não espera, Ele age.

3.                Deus vai com a gente até o fim. Você sofreu problemas na vida. Deus não te abandonou. Eu já vi muita coisa na vida. Já vi pessoas perdendo tudo ou ganhando coisas. Casamentos bem sucedidos e que se acabam. Pessoas jovens doentes e velhos saudáveis. Vi pessoas escaparem de afogamentos e outras sucumbirem diante da correnteza. A beleza do evangelho é que Deus não desiste. Deus é o rosto amoroso que nos ouve sempre. Ele nunca vai nos mandar parar de reclamar. Ele vai nos entender. Ele é o que restaura a nossa vida. Ele faz do nosso lamento um baile. Ele vai restaurar as cores da sua vida. A misericórdia divina triunfa sobre a justiça. E eu sou alvo da gentileza celestial.


Só pela graça,

João Victor 


terça-feira, 26 de abril de 2016

QUANDO OS TEMPLOS CAEM

 
Sobre Mateus 24

            Será que estamos preparados para o inesperado? Sustos acontecem apenas quando não esperamos o momento deles. É o assalto, o acidente de carro, os tropeços. Muitas situações nos pegam de surpresa. Nossas reações diante delas também são incógnitas. Surpresas, que podem ser boas ou ruins, vêm sempre com uma carga emocional gigantesca. Não estávamos prontos. Não era o momento que aguardávamos. Não foi no dia combinado. Não foi do jeito que pensamos.
            O fato é que, no que diz respeito ao tempo, precisamos estar esperando até mesmo o inesperado. As aflições, as doenças, as provações aparecem e devemos reagir a elas. Entretanto, viver de expectativas, quer sejam agradáveis ou terríveis, tira um pouco do sabor da vida. As nuvens avisam quando a chuva virá. Daí, saímos com o guarda-chuva. Porém, se sempre estivermos protegidos, nunca experimentaremos um bom banho de chuva.
            Viajar sem planos, como uma barata voadora que não sabe ao certo onde vai pousar, é maravilhoso. Ser surpreendido por um pôr-do-sol, por ter atrasado durante um trajeto que se encerraria no começo da tarde e que, por um motivo ou outro, se estendeu ao crepúsculo. Entrar no ônibus e passear pela cidade toda, conhecendo vários tipos de pessoas, vários bairros, várias vistas e voltar ao lugar de partida. Aventuras que deveríamos fazer algumas vezes. Sem planos, desorganizados, aproveitando o momento, o dia, a vida.
            Todavia, há questões mais profundas abordadas nesse texto. Não estamos falando de viagens terrenas. Não é sobre sustos “tira-soluços”. Jesus fala de construções. Estruturas sólidas erguidas pelo homem. Templos que erguemos dentro de nós mesmos ou do lado de fora. Jesus fala da destruição desse templo. Ou seria “deste” templo? Não ficaria pedra sobre pedra. Todas as paredes seriam derrubadas. Tudo que passaram anos construindo seria aniquilado. O dia e a hora em que tudo aconteceria ninguém iria saber.
            O que faz os nossos templos espirituais caírem?

1.    Mentiras. Muitos prometeriam salvação, mas não seriam Cristo. O problema é que muitos acreditaram por eles personificarem o tipo de “messias” que as pessoas esperam. Engano, trapaças, cobiça por glória, poder, por status, honra. Em quem confiar? Em quem acreditar? Jesus nos adverte não a sermos incrédulos, mas a estar atentos aos falsos profetas, até porque virão em nome Dele. E isso não é apenas na ótica religiosa. É relacional também. Relacionamentos baseados em falsidade tendem a desmoronar. Devemos vigiar. Devemos ser verdadeiros. Se quisermos assumir postura de Cristo, devemos nos preparar para mais cruz e menos hosanas. O filho do homem virá e levará os verdadeiros.

2.    Guerras. Não conseguiremos fugir delas. Nações contra nações. Reinos contra reinos. Abalos sísmicos despedaçariam os templos. E por muitos terremotos precisaremos passar.  São tremores que destroem castelos erguidos com muito sacrifício. Famílias que se esfacelam por discussões banais. Sabemos quando isso vai acontecer? Não, mas devemos estar prontos. A sirene nos avisa quando é hora de fugir e evitar a morte. Guerras e terremotos são terríveis. Ver os destroços deve ser uma dor incalculável. Contudo, apenas os sobreviventes contemplam os destroços e podem reconstruir o que foi arrasado. O filho do homem virá buscar quem permanecer de pé.

3.    O amor esfriará. A temperatura do ódio aumentará. Percebemos isso. É bem mais prático resolver os problemas expulsando as pessoas que amamos do nosso convívio do que as perdoando e oferecendo segundas chances. O mundo se isola, cada dia mais. Redomas de vidro de um metro quadrado são fabricadas para cada indivíduo para abrigar seus egos. Cada um no seu quadrado. Alguns ainda citam Paulo e Barnabé, suas desavenças e como cada um foi para um lado diferente. O evangelho se expandiu, se multiplicou. Não houve divisão. Houve multiplicação. O amor multiplica, não divide. É pelo amor de um homem e de uma mulher que uma vida é gerada. O nascimento é uma prova de amor. A ausência de amor causa o aborto. O amor esfria. Congela. Icebergs afundam navios. Precisam de calor para derreter e provocarem uma onda de paz. Jesus nos alerta. Vamos vigiar. O amor está congelado. Vamos aquecer nossas relações. Isso vem com proximidade, afeto, abraços, perdão. Não sabemos quando precisaremos, diante de um gesto de fúria ou ódio responder com amor. O amor nunca é a parte gelada do confronto. Frieza é personificação do mal. O amor aquece a alma, já dizia o cantor popular. O filho do Homem vai vir buscar aquele que amar acima de tudo.
            Não sabemos quando teremos que enfrentar mentiras, guerras, terremotos, amor abaixo de zero. Devemos vigiar. Não sabemos o dia nem a hora que nosso templo cairá. Entretanto, sabemos que o Filho do Homem virá. Como estarei preparado? Cumprirei todas as regras estabelecidas pela igreja? Ótimo, você será um excelente membro. E se o cumprimento de todas essas regras religiosamente estabelecidas me fizer obrigar que todos, mesmo ainda girinos, imberbes, recém-convertidos, a ser como eu, diligente, proativo, acima da média espiritual das demais ovelhas? Não. Não devo ser provocador de guerras, mas um arauto da paz. Não devo exigir que todos tenham a mesma deformação do meu elástico espiritual. É algo particular. Cada um sabe seu limite. Não devo ser um obreiro exemplar e pai relapso. Não devo de forma alguma, baseado na minha aparente perfeição, perder a essência do amor e do perdão, fundamentando minha experiência com Deus a atos punitivos e inquisitórios.

            Nosso templo pode ser destruído. Como me preparo então? Sendo verdadeiro. Reconstruindo o que foi destruído. Entendendo as perdas. Amando. Permanecendo de pé, até o fim.

Só pela graça,

João Victor

terça-feira, 24 de novembro de 2015

O VAZIO


Baseado no texto de Salmo 46.10

Diz a lenda que Alexandre, o Grande, queria a todo custo entrar no Santo dos Santos, no templo construído por Salomão. Ali, havia uma câmara onde os judeus diziam que Deus manifestava a sua glória. O rei macedônio andava curioso para conhecer esse Deus. Depois que devassou a cidade e o templo, ele se decepcionou: o lugar era um mero espaço vazio, escuro e profundamente silencioso. Alexandre não conhecia místicos de várias tradições da espiritualidade. Muitos haviam intuído que o vazio é sagrado e o nada guarda mistério.

Salmo 46.10: Aquiete-se. Só assim você vai perceber que sou Deus. Sinto a necessidade de inundar a mente, feito menino, com perguntas sem fim: Por que existe alguma coisa e não o nada? Os confins do universo possuem margem? Por que, no processo evolutivo, os humanos desenvolveram a angústia? A realidade, nos sonhos, que expõe o universo do inconsciente, não seria ainda mais real do que o mundo consciente?

Enquanto martelo essas indagações, imagino poder alcançar a resposta aos por quês. Sentado ou correndo, penso, penso, penso.  Mesmo sabendo que nunca me satisfarei com a imensidão do mistério que me envolve, não descanso a curiosidade. Quero respostas não para o como das coisas, necessito tocar o imensurável com os meus desesperados por quês.

Semelhante ao imperador, não sei lidar bem com o vazio sagrado. Loto meus dias de barulho. Vivo apressado. Não ter que conviver com o nada parece ter força de aliviar o medo da morte. Divertimento, no sentido filosófico, vira narcótico – miçanga de uma felicidade real. Se o imarcescível só é percebido no vazio, preciso exercitar o que o profeta aconselhou: Bom é ter esperança, e aguardar em silêncio a salvação do Senhor… Assente-se solitário e fique em silêncio [Lamentações 3.26-28].

Contudo, precisamos de respostas. E o texto dá as respostas necessárias.  Precisamos nos aquietar.
Quando enfrentamos dificuldades em nossa vida que fazem parecer como se estivéssemos num navio que está sendo jogado de um lado a outro num mar tempestuoso, como podemos permanecer calmos enquanto uma tempestade se enfurece ao nosso redor?

FIQUE CALMO!!!!!!COMO?
1.    LIVRE-SE DOS RUÍDOS

·       Não há como estar calmo ouvindo barulho. Quanto mais você ouve os murmúrios, mais nervoso ficamos. Quanto mais barulho, mas stress.
·       Quanto mais barulho, menos você ouve a voz de Deus. PARE!!! OUÇA A VOZ DE DEUS!!! DEIXE ELE FALAR.

2.    LIVRE-SE DA TEMPESTADE
·       Não significa que a tempestade tenha passado, mas que a tempestade já não está mais dentro de você. Ao redor a tempestade pode ser terrível e destruidora, mas dentro de você reinará a paz. Não uma paz baseada na alienação, do fazer de conta que não está havendo nada, mas a paz baseada na confiança de que Jesus está contigo no barco e ele não vai naufragar.

3.    LIVRE-SE DAS INTERRUPÇÕES
·       Os problemas da vida nos fazem parar. Parar de orar, parar de ler a palavra, parar de buscar. Quando paramos, o mundo continua. Quando interrompemos o que estamos fazendo, ficamos para trás.
·       A obra deve continuar. Filme O Último Samurai
·       Nada na mente – NÃO PARE O QUE ESTÁ FAZENDO POR CAUSA DAS PESSOAS! NÃO FIQUE PARA TRÁS!
7 VIRTUDES DO BUSHIDO : JUSTIÇA, COMPAIXÃO, BRAVURA, POLIDEZ, SINCERIDADE, HONRA, LEALDADE
“Eu não tenho espada, faço da perseverança a minha espada”

4.    OLHE PARA DENTRO DE VOCÊ : Ezequiel, o profeta bíblico, comeu um livro repleto de lamentos, prantos e ais. Depois de encher a barriga, afirmou: Eu o comi, e na boca me era doce como mel. [3.3]. Como pode um livro de lamentos ser doce na boca de alguém? Muito estranho alguém gostar de prantear.
         Ezequiel precedeu a fala de Jesus: Felizes – bem-aventurados – o que choram porque eles serão consolados. Os que choram conseguem não apenas aliviar as dores do coração; desafogam não só imperativos triunfais. É feliz quem pode expressar angústia sem o patrulhamento dos insensíveis. Alguém já disse que poeta só é poeta se sofrer. É possível dizer também: profeta só é profeta se aprende a lamentar.

O Tao também ensina:
Trinta raios unem um eixo,
A utilidade da roda vem do vazio.
Queima-se o barro para fazer o pote.
A utilidade do pote vem do vazio.
Rasgam-se janelas e portas para criar o quarto.
A utilidade do quarto vem do vazio.

SABEI QUE EU SOU DEUS!!!

Todos os nossos pecados foram pagos na cruz do Calvário. Tudo foi consumado! Tudo foi resolvido. O sangue nos purificou. O sangue nos salvou.
Estamos livres.
O vazio é então preenchido. E não existirá mais.


Quem sabe, a resposta às grandes perguntas da vida habite a coragem de conviver com o vazio. Nada nos inquietar, senão com nosso próprio enigma, talvez ajude. A solução que tanto procuramos pode vir não da racionalidade, mas da noite escura do não-saber. Como ensinaram os místicos, o convívio com as profundezas de nosso interior deve bastar. A não-resposta, a não-solução e o não-sei se irmanam à razão para nos deixar na companhia do essencial.

O mistério da vida talvez venha do convívio tranquilo com o que não dominamos. Quem sabe, longe das demandas da competência, sem as vozes da onisciência, consigamos conquistar o abismo que nos impede de achar o verdadeiro eu - e com ele, o sagrado. No templo de Apolo em Delfos, lia-se: Conhece-te a ti mesmo. Mais tarde, a mesma frase foi atribuído a Sócrates com um complemento: Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses.


Jesus de Nazaré avisou: quem quiser ganhar a vida vai perdê-la e quem ousar perder a sua vida vai ganhá-la. Em outras palavras: se temos coragem de nos esvaziar da arrogância de tudo possuir e tudo saber, podemos intuir o inaudível, sentir o imperceptível e experimentar o indescritível. No silêncio, desvelamos nossa pessoalidade – que nos singulariza em um universo impessoal. Não seria precisamente esse o maior de todos os segredos?

domingo, 8 de novembro de 2015

Isto é o meu corpo?



Em que estado encontramos o corpo de Cristo? Quantas guerras interdenominacionais temos presenciado? A idolatria pelo "corpo" de Cristo tem minado a fé de muitas pessoas. Valorizam muito mais a placa da igreja local do que a Igreja em si. Por outro lado, há os que não entendem que fazem parte desse corpo e não podem andar sozinhos, independentes. A verdade é que precisamos uns dos outros. Isso é ser corpo.
Entretanto, que significado tem o corpo de Cristo? Em Lucas, Jesus compara seu corpo ao pão. O corpo é pão. O pão é corpo. O corpo é alimento. O pão é alimento. O corpo é a Igreja. A Igreja é o pão. PRECISAMOS DE PÃO, POIS A FOME VEM. Precisamos do corpo porque sentimos fome. Quantas vezes o vazio tenta se apoderar de nós? Falta de pão. Falta de se sentir corpo. Falta de unidade. Quando não nos sentimos um pedaço desse pão, não entendemos o que é corpo.
Passamos a vida inteira reclamando do nosso pão, do corpo. Devemos aprender a AGRADECER PELO PÃO. Por que não damos graças? Por que não agradecer, ao invés de reclamar? Por que não reconhecer o processo pelo qual nosso pão foi fabricado? É necessário entender que o trigo foi semeado, foi regado, foi arado, passou por todos os processos para virar pão, que veio do forno e que deve ser sem fermento. Quantas metáforas. Não precisamos de aditivos para virarmos pão. O corpo de Cristo não precisa de enfeites, grânulos de gergelim ou outros apetrechos para que seja comível. O pão deve ser sem fermento.
Devemos ser pão. Não importa se somos casca ou miolo. Sejamos pão. Agradeçamos ao lugar onde Deus nos colocou para alimentar pessoas.
Contudo, o texto de Lucas diz que Jesus repartiu o pão. O corpo é repartido. Cada um tem sua função, sua razão de estar à mesa. O corpo era de Cristo, mas Ele o repartiu. Os fragmentos se espalharam, sem deixar de ser corpo. O pão foi separado, mas não deixou de ser pão. A questão é essa. Enxergamos apenas a parte de um todo, como cegos tocando um elefante em partes diferentes. Nossas igrejas podem até ter doutrinas diferentes, dogmas diferentes, podem usar roupas diferentes, estilos variados, mas não deixamos de ser do mesmo pão, do mesmo corpo. O PÃO É REPARTIDO, MAS NÃO DEIXA DE SER PÃO.
Além disso, Jesus disse que o corpo nos foi dado. Às vezes, com desprezo, sem entender o processo, sem provar antes, sem nem sequer reconhecer nossa fome, nos perguntamos com um ar arrogante: ISTO É O CORPO? ISTO AÍ? CHEIO DE DEFEITOS? CHEIO DE PESSOAS PROBLEMÁTICAS? Entretanto, algo não podemos negar. O pão que temos nos foi dado por nossa causa, porque precisávamos dele. A Igreja, a comunhão é necessária, é imprescindível. Jesus nos deu a Igreja. Jesus nos deu o seu corpo para que passássemos a ser o seu Corpo. Ao olhar para a Igreja, devemos ver Jesus. Que Jesus estamos exibindo ao mundo? Que Corpo de Cristo temos mostrado? Jesus pergunta hoje: ISTO É O MEU CORPO?
A Igreja é o corpo glorificado de Cristo, vivo. Contudo, passa pela etapa da cruz. Sofre perseguição, é ferida, atacada, mas vence a morte. Essa é a Igreja. Esse é o Corpo.
O que fazemos é EM MEMÓRIA DELE. Como Igreja, nós lembramos Jesus? Nós o homenageamos ou o envergonhamos? Sua memória é preservada quando entendemos a cruz, não ouvimos os gritos da multidão enfurecida e, principalmente, quando perdoamos. Se não soubermos perdoar, nunca seremos Igreja, nem Corpo, nem pão. É isso que queremos?

Só pela graça,

João Victor

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A verdadeira paz existe?


Quando pensamos em paz, algumas imagens vêm à nossa cabeça. Um lago entre as montanhas num dia ensolarado, calmo, com pássaros voando e uma criança sentada com os pés imersos na água. Uma música como a obra prima de Dolores Duran "A noite do meu bem", cuja letra é uma das mais belas poesias já escritas.

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem
Hoje eu quero a "paz de criança dormindo"
Quero a ternura de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem

Enfim, essa imagem de paz se contrasta com alguns Salmos da Bíblia. Textos angustiados, almas em tempestade. Paranóias de perseguição.
Sl.69:1 - "Salva-me oh Deus, pois as águas subiram ao meu pescoço"

Nessa tensão entre o desejo de paz e a angústia, a gente envelhece. Envelhece por dentro. Não tem a ver com a idade. Esse envelhecimento está relacionado com a angústia que a vida gera. A angústia de se sentir atolado, sufocado, pelos problemas e dificuldades. São mães que educam os filhos e hoje se sentem cansadas. São homens que trabalharam a vida inteira, mas nunca conseguiram conquistar nada de positivo. São pastores que se matam pela igreja, mas só vêem cobranças e descompromissos. A realidade é que a vida não é um pic-nic e a roda gira. O drama humano é pesado. Nessa luta diária, como encontrar a paz?

Em primeiro lugar, precisamos perceber quando estamos fadigados. Quando chega a exaustão, é hora de pedir socorro. A partir dessa percepção, tomamos algumas atitudes para trazer a paz de volta ao nosso coração aflito. Precisamos ter bons pensamentos a respeito de Deus. Essa é uma questão importante. O que pensamos sobre Deus? Quem achamos que Ele é? Em que "Deus" você acredita? No Deus carrasco, guerreiro? Distante, frio? General? Imóvel? Deus é manso e humilde de coração. Seu Reino é um convite a uma festa, não a um quartel. Deus nos oferece uma casa, com muitas moradas, não uma hospedaria para fins de semana. Ele é um Deus amigo, não protocolar. Se sente cansado? Existe um Deus com o qual você pode conversar, sem que Ele vá lhe criticar ou bater em você. Ele é carinhoso. Uma alma cansada precisa de carinho. Esse carinho nos traz a paz.

Fala Jesus querido
Fala-me hoje sim
Fala com tua bondade
Fica ao pé de mim

Para conseguir a paz também é importante lembrar que o fardo de Deus é leve. Não precisamos levar pesos desnecessários. Devemos tirar o fardo das costas, tirar a culpa. Não a culpa saudável, que faz brotar o arrependimento e a restauração, mas a culpa patológica, que nos mantém nos "fundos de poços psicológicos". A culpa que nos impede de orar, que produz uma barreira quase intransponível de chegarmos a Ele. A culpa que desenvolve cultos sofríveis, de lamentações, de dores. Nossos cultos devem ser celebrações, onde toda a culpa é perdoada e onde a tristeza salta de alegria.

Deus nos traz paz. A verdadeira paz. Ele nos dá a certeza de que o que dissermos a Ele nunca será compartilhado com ninguém. Ele nos garante sigilo para nossos segredos mais íntimos. Ele demonstra interesse em nossas preocupações, mesmo as mais tolas na perspectiva humana. Ele não nos menospreza. Ele enfrenta conosco as dificuldades, como um irmão mais velho que briga por nós no colégio. Ele não nos julga. Ele acompanha nosso ritmo, às vezes tão apressado, e nos tranquiliza quando compreendemos que o tempo é Dele. Ele não pede nada em troca. Não nos cobra depois. Deus nos traz a paz. A paz que resiste ao fogo, ao vento, à tempestade. A paz que nos protege internamente de toda influência externa. Essa sim, é a verdadeira paz.

Só pela graça,

João Victor  

sábado, 31 de outubro de 2015

HALLOWEEN DA FÉ?


Que hoje, dia 31 de outubro, Dia da Reforma Protestante, deixemos de querer fazer da Igreja uma festa de Halloween, onde muitos vestem máscaras, até mesmo assustadoras, hipervalorizando as obras do demônio e esquecendo que o Cordeiro já venceu o Dragão. 
Que os cultos sejam para a glória de Deus e não para dar "ibope" ao maligno, cultuado no Halloween. 
Que os templos sejam cheios da Glória e não do medo. 
Que vivamos um evangelho de liberdade e não de terrorismo, onde nossa salvação seja comparada a uma bolha de sabão, facilmente estourada por setas ou unhas compridas dos "Freddy Kruegers" que querem transformar nosso relacionamento com Deus num legítimo pesadelo.
Que o "Pânico" dos ataques do diabo seja substituído pela paz de saber que problemas acontecem com todos, mas Deus está conosco e Sua presença nos faz viver o céu na terra.
Feliz Dia da Reforma. E que o Halloween fique de fora.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Onde estás?


Geralmente, a pergunta é invertida. As tragédias e dores da vida nos fazem questionar "Onde Deus está". Há um mundo invisível. Somos compungidos a negar sua existência. Ao nos depararmos com situações insuportavelmente terríveis, atribuímos a culpa ao que não vemos, sob o pretexto de excluir o materialismo das responsabilidades de nossos ombros mortais.

Existiria realmente um mundo invisível? Certo dia, um jovem com alguns problemas de visão foi reprovado na disciplina de microbiologia. Ele não conseguia ver o que estava no microscópio, por mais que as lentes poderosas ajustassem o foco. No dia da prova, o rapaz começou a desenhar manchas e formas que estava vendo. Tal foi a surpresa quando os rabiscos mostraram que o aluno havia desenhado seu próprio olho. Será que representamos nos outros o que vemos nos outros ou o que está sendo refletido em nós mesmos? Será que, quando perguntamos sobre o paradeiro de Deus, não seremos nós os verdadeiros desaparecidos? Onde estamos?

Quando Adão peca, ele tenta se esconder. Onde estamos diante dos olhos de Deus? Alguns podem simplesmente ignorar a Deus. Quando o homem cai, forma-se uma ruptura, um abismo entre o mundo visível e o invisível. Entretanto, durante toda a história, sempre o homem criou imagens do mundo invisível para se apoiar. O que não se podia explicar era atribuído a Deus ou a deuses. Com o avanço da ciência, com o Iluminismo, houve uma tentativa de excluir o mundo invisível do contexto humano. Antes, camponeses poderiam sofrer uma vida inteira, mas mantinham uma esperança de algo invisível. Hoje, com toda a tecnologia, o homem pós-moderno racionalizou tanto sua existência que não conseguem mais crer se os seus olhos não vêem. Perdemos nossas almas para ganharmos o mundo. Adianta?

Estamos perdidos. Sem Deus. Será que Deus tem nos encontrado? Faz sentido continuar a correr sem destino, como o conselho do gato de Alice? Por que sofri? Por que sorri? Por que chorei? Por que nasci? Todas essas perguntas são respondíveis, quando eu entendo que o importante mesmo não são as emoções, mas o que eu aprendo com elas. A felicidade não é uma meta. A felicidade é um caminho.

Adão não some fisicamente. Adão perde a verdade. Adão opta pela mentira. Adão perde a intimidade com Deus. Onde está o que você aprendeu, Adão? Onde está o que eu te ensinei? Onde estão os anos caminhando no jardim? O problema é que esquecemos as lições. Trocamos primogenituras por pratos de lentilhas. Saciamos a fome momentânea, mas criamos uma cratera no espírito. Deus pergunta.
Onde estão os momentos de oração? Onde estão os louvores? Onde estão os momentos comigo?

As perguntas de Deus nos fazem sair dos esconderijos. Não há como se esconder Dele. Fugimos de casa, mas voltamos chorando quando o Pai nos encontra. Não se esconda na árvore do orgulho, da mentira. Deus nos encontra. E nos encontra nus. Estamos vulneráveis. Longe Dele, estamos expostos. O abismo que havia entre o mundo visível e o invisível é atravessado pela ponte em forma de cruz. Jesus se entregou para acabar com o abismo. Deus não apenas nos vê. Ele nos ama. E voltamos a andar juntos pelo jardim.

Só pela graça,

João Victor